quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Gama


Gama formou-se no Sp. Braga, mas foi no Rio Ave que construiu a sua carreira e ganhou "raízes".
Nome incontornável da história do clube de Vila do Conde, chegou lá pela primeira vez em 1992 e, volvidos vinte e quatro anos, ainda está ao serviço do clube verde-e-branco: foram quinze anos como jogador e já vão nove como treinador-adjunto da equipa principal.
Curiosamente, o verde-e-branco está marcado na vida do antigo avançado logo desde o início da carreira, ou não tivesse a sua estreia na I Liga sido diante do V. Setúbal, com a camisola do Sp. Braga, e quando ainda era júnior.
Entre 1987 e 1992, fez 22 jogos pelos minhotos na I Liga e marcou um golo, com um empréstimo ao Fafe pelo meio. Depois, rumou a Vila do Conde envolvido na saída de Toni para Braga, e foi lá que fez praticamente toda a sua carreira, com 206 jogos e 14 golos na I Divisão.
Ao serviço do Rio Ave, subiu duas vezes à I Liga, chegou às Meias-Finais da Taça de Portugal, e esteve presente na segunda volta sensacional que o clube fez em 96/97.
Foi, ainda, dez vezes internacional por Portugal entre os Sub-18 e Sub-21.
Aos 46 anos é, como já se disse, adjunto do Rio Ave desde 2007, altura em que colocou um ponto final na carreira, marcada, claro está, por quinze épocas consecutivas ao serviço dos vilacondenses.

Prémio Carreira: Era júnior quando foi lançado na I Liga, pelo Sp. Braga, na época 87/88. Recorda-se da sua estreia?
Augusto Gama: Sim, recordo. Entrei contra o V. Setúbal, em casa, e empatámos 2-2. O nosso treinador era o Manuel José, e o Braga tinha jogadores que eram grandes referências como Laureta, Jorge Gomes, Carvalhal, entre outros. E é claro que senti uma grande emoção em estrear-me na I Liga, em pleno Estádio 1º de Maio, perante os sócios do SC Braga.

PC: Até 1992, com um empréstimo ao Fafe pelo meio, nunca conseguiu ter verdadeiramente uma oportunidade para se fixar no Braga. Na sua opinião, o que falhou para não ter tido hipótese de se afirmar no 1º de Maio?
AG: No meu caso, penso que faltou ter uma sequência de oportunidades para jogar. Dou o exemplo de quando estive em Fafe, em que era jovem e tive essa sequência de oportunidades, e consegui impôr-me. Naquela altura, não era fácil um jovem ter muitas oportunidades, e o Sp. Braga vivia uma fase intranquila, precisava de resultados, e quando os clubes não estão bem, não arriscam em lançar jovens.

PC: Precisamente em 1992, saiu para o Rio Ave, que jogava na II Divisão de Honra. De todos os convites que teve, era a melhor opção? 
AG: Recordo-me que sai para Vila do Conde juntamente com o Barroso, em virtude do Toni, que era um ponta-de-lança cabo-verdiano, ter ido para o Sp. Braga. A diferença é que eu saí em definitivo e o Barroso foi emprestado. Tive outras propostas, mas a do Rio Ave foi a melhor que apareceu, tanto para mim, como para o Sp. Braga.

PC: Quando se estreou na I Liga pelo Rio Ave, em 96/97, o clube fez uma péssima primeira volta e uma espetacular segunda volta. O que mudou? Quais foram os "segredos"?
AG: O essencial foi tirarem-nos a pressão. Chegámos a uma altura em que a "obrigação" de ganhar deixou de existir, porque assumimos praticamente a descida de divisão. Quando ganhámos o primeiro jogo sentimos uma grande alegria, voltamos a unir-nos, e fomo-nos superando a cada jogo que fazíamos. O Rio Ave estava há muitos anos sem jogar na I Divisão, tínhamos jogadores com pouca experiência e havia muita pressão para garantirmos a manutenção. Praticamente fizemos o inverso do Espinho: tinhamos 7 pontos na primeira volta e acabámos com 35; e eles acabaram a primeira volta em quarto lugar com 27 pontos e descerem de divisão com 33. Essa permanência era, sem dúvida, algo impensável.

PC: Jogou quinze temporadas no Rio Ave, sete na Primeira Liga e oito na Segunda. Com certeza teve convites para sair. Por que razão nunca saiu?
AG: Essencialmente porque sempre me senti bem em Vila do Conde. Ainda apanhei aquela altura em que os clubes tinham a "carta" dos jogadores e não os deixavam sair a qualquer proposta que houvesse, tinha que ser mesmo uma proposta fora do normal. Mas o Rio Ave é um clube especial, um clube familiar, que proporciona todas as condições de trabalho a quem lá está. Naturalmente que tive várias propostas para sair, uma delas foi do Vasco da Gama do Brasil, que era treinado pelo Abel Braga, que já tinha sido meu treinador no Rio Ave, mas não houve acordo, e outras da I Liga, que fui rejeitando por opção minha. Mas não me arrependo de não ter saído.


PC: Quais são os momentos da sua carreira que mais destaca?
AG: Momentos positivos destaco as duas subidas pelo Rio Ave, em 95/96 e 02/03, e a recuperação que falámos anteriormente, em 96/97. Após o jogo em que garantimos a manutenção, na chegada a Vila do Conde, o autocarro não conseguia passar a ponte, porque estavam centenas de pessoas à nossa espera, e é um momento inesquecível para quem o viveu.
Os momentos negativos são as descidas de divisão pelo Rio Ave, em que ficámos sempre tristes tanto por nós como pelo clube que representámos porque não conseguimos os objetivos. E destaco também a chegada às Meias-Finais da Taça de Portugal em 99/00, em que estivemos perto de cumprir o sonho de ir ao Jamor, mas acabámos eliminados pelo FC Porto.

PC: Fez onze temporadas na I Liga. Qual foi a sua melhor?
AG: Sem dúvida a de 03/04, porque foi uma grande época não só da minha parte, como também da equipa. Praticávamos um futebol de muita qualidade, tinhamos um excelente grupo, e batemos nesse ano o recorde de pontos do Rio Ave na I Liga - 47. Curiosamente só na época passada é que esse recorde foi ultrapassado.

PC: Nessas onze épocas, fez 206 jogos e apontou 14 golos. Há algum jogo que recorde em especial?
AG: Sim, há dois: o jogo que nos garantiu a tal permanência na I Liga em 96/97; e um Varzim - Rio Ave, penso que em 97/98, que ganhámos 3-1, com golos de Emanuel, Quinzinho e Luís Coentrão, e que os adeptos ainda hoje se lembram e falam.

PC: E golos? Qual o golo na I Liga que não esquece?
AG: Não esqueço o golo que marquei ao Estrela da Amadora, em 02/03, que até foi na II Liga, mas que nos garantiu a subida de divisão. Dos que marquei na I Liga, recordo-me de um contra a Académica em 04/05, em que fiz um chapéu ao Pedro Roma, e ganhámos esse jogo por 3-1. Marcava poucos golos, mas diria que 90% dos golos que marquei foram de belo efeito.

PC: Sendo o Gama avançado, qual o defesa mais duro que apanhou? Ou aquele que era mais difícil de ultrapassar?
AG: Apanhei bastantes... Mas destaco o Bruno Alves, que era um jogador agressivo, e atleticamente muito forte, e que era muito difícil de ultrapassar, mesmo quando estava a iniciar a sua carreira, primeiro no Farense e depois no V. Guimarães.

PC: Certamente que ao longo da sua carreira, presenciou vários momentos divertidos. Há algum que se lembre e que possa contar?
AG: Uiii, são tantas histórias (risos). Recordo-me de um episódio que ocorreu no final de um treino no Rio Ave, em que estava a beber água juntamente com o Zé Gomes, e havia um colega nosso que usava um "pivot" dentário e que na altura em que ele estava a beber água, esse mesmo "pivot" soltou-se e ficou-lhe preso na garganta. Ele muito aflito começou a dizer "Gama não consigo respirar", e o Zé Gomes chamou o massagista que estava do outro lado do campo. Entretanto, eu dei um solavanco nas costas desse nosso colega e aquilo saiu-lhe. O massagista quando chegou, perguntou o que se estava a passar, e o Zé disse "foi ele que engoliu o aparelho", e ele pergunta "qual aparelho?", então o Zé, enervado, responde-lhe "olha, foi o aparelho da música" (risos).

PC: Desde 2007 trabalha como adjunto da equipa sénior do Rio Ave. É nessa função que quer continuar a estar ligado ao futebol ou gostava de ter outras?
AG: Eu sinto-me feliz só de estar ligado ao futebol, porque o futebol é a minha vida e algo que me dá prazer. Naturalmente que todos temos ambições, mas o que eu quero e gosto mesmo é de estar ligado ao futebol e ao Rio Ave.


A carreira de Gama, aqui.

Veja aqui, por volta dos 2:10 do vídeo, um golo de Gama ao Sporting:


Aqui, por volta do minuto 1:15, uma assistência de Gama diante do Benfica:


E o golo de Gama à Académica, aqui.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Zé Nando


Formado no Penafiel e contratado pelo FC Porto, seria no Paços de Ferreira que Zé Nando teria a oportunidade de singrar na I Liga.
Nas Antas nunca lhe deram a oportunidade de integrar o plantel principal, e emprestaram-no sucessivamente durante três épocas: ao Leça, ao Gil Vicente e ao Paços de Ferreira.
Ao longo de quatro anos, o antigo defesa-esquerdo ajudou os pacenses a consolidarem-se na I Liga, com boas épocas, boas classificações e com vitórias sobre todos os "grandes".
Em 2004, Zé Nando transferiu-se para o Vit. Guimarães, e encerrou aí um ciclo de seis temporadas consecutivas ao mais alto nível, rumando depois ao Chipre, onde esteve três anos.
Terminada a experiência por terras cipriotas, resolveu voltar a casa para acabar onde tinha começado: no Penafiel, que ajudou a subir da II Divisão B para a II Liga.
Com 128 jogos na I Liga, Zé Nando teve o reconhecimento do nosso País quando foi chamado para representar Portugal, por quem soma duas internacionalizações na Seleção B, e esteve, ainda, pré-convocado para a Seleção A.
Atualmente com 41 anos, é diretor-desportivo do Penafiel há cinco temporadas, e é nesta função que pretende continuar no futuro.

Prémio Carreira: Indirectamente chega à I Liga pela mão do FC Porto. Como surgiu a oportunidade de se mudar para as Antas?
Zé Nando: Surgiu depois de fazer os primeiros cinco anos como profissional no Penafiel, na Segunda Liga, e em 1998, tive a oportunidade de assinar a custo zero pelo FC Porto. Assinei contrato de quatro épocas, mas fui sempre emprestado: primeiro ao Leça, depois ao Gil Vicente e por último ao Paços de Ferreira, com quem acabei por assinar em definitivo, em virtude da saída do Rafael para as Antas. Quando assinei com o FC Porto, ainda pude fazer a pré-época com a equipa principal, na altura no primeiro ano do mister Fernando Santos, mas acabei emprestado ao Leça, que ia jogar na I Liga, e acabou por ser despromovido na secretaria.

PC: Em 99/00 estreou-se na I Liga pelo Gil Vicente. Recorda-se da estreia?
ZN: Sinceramente, não (risos). [Em Barcelos, com a União de Leiria.]

PC: Essa época esteve longe de ser positiva para si. O que se passou para ter jogado tão pouco?
ZN: Na altura, o treinador tinha outras opções que, naturalmente, custavam a entender, porque achava que tinha mais qualidade e capacidade para jogar regularmente. Recordo-me que em Dezembro pedi à direção para sair, mas não deixaram, e acabei depois por estar cerca de três meses sem sequer entrar na ficha de jogo, pois ou não era convocado ou ia para a bancada.

PC: Depois mudou-se para o Paços de Ferreira. Era a melhor opção? 
ZN: Sim, era. Primeiro porque o Paços me apresentou um projeto interessante, e segundo porque o mister José Mota insistiu bastante comigo, ligava-me todos os dias, e isso acabou por pesar bastante para mim, porque sabia que ia ter a oportunidade de poder jogar com regularidade.

PC: O Paços foi o clube mais importante na sua afirmação?
ZN: Acabou por ser, porque foi o clube que me deu a oportunidade de me poder dar a conhecer, digamos assim. Fui chamado à Seleção B enquanto jogador do Paços, e estive, depois, pré-convocado para a Seleção A, num lote de trinta jogadores. Também foram anos muito bons para o clube, que fez boas campanhas, ganhou aos três "grandes", obteve boas classificações e afirmou-se na I Liga. Recordo-me que nas três primeiras épocas melhorámos sempre a nossa classificação: 9º lugar em 00/01; 8º em 01/02; e 6º em 02/03.

PC: Em 2004 saiu para Guimarães. Porquê o Vitória?
ZN: O Vitória era um namoro antigo (risos). Puxando a "cassete" atrás, já tinha tido a possibilidade de jogar no Vitória anteriormente, mas o Paços não deixou, porque me considerava inegociável. Tanto que o Benfica também me quis contratar, e o clube rejeitou a oferta. Depois, no meu último ano em Paços, estava em fim de contrato, apareceu o Vitória e aceitei.

PC: O que falhou para ter sido pouco utilizado?
ZN: Falhou, se calhar, ter mais oportunidades para jogar, apenas isso. Apesar de não ter jogado muito, era quase sempre convocado, e considero que foi uma boa época, pois tinhamos um plantel forte, e conseguimos o apuramento para a Taça UEFA. E para a minha posição a outra alternativa era o Rogério Matias, que chegou a ser chamado à Seleção nesse ano.


PC: Quando saiu de Guimarães, rumou a Chipre onde esteve três anos. Como surgiu esta possibilidade e como foi a experiência?
ZN: Primeiro fui convidado pelo clube, AEK Larnaca, a visitar as suas instalações e o País sem assinar qualquer compromisso. Como gostei do que vi, resolvi aceitar o convite. E muito sinceramente, nunca pensei ter espírito de emigrante, porque vamos conhecer uma realidade à qual não estamos habituados e vamos sem preparação nenhuma, digamos assim. Estamos longe da família, dos amigos, etc, e isso pesa bastante.
Mas gostei bastante dos três anos que lá estive. As coisas correram bem a todos os níveis, o AEK tinha um projeto interessante, estava-se a afirmar, e logo no primeiro ano chegamos à final da Taça, mas acabámos por perder no prolongamento. Ainda joguei mais um ano no AEK e depois sai para o AEL Limassol, que é um histórico do Chipre e que tem uma massa adepta um bocado nervosa (risos). É gente que vive o futebol de forma diferente da nossa, e posso dizer que vi situações impensáveis de acontecer por cá.

PC: A chamada à Seleção é momento mais alto da sua carreira?
ZN: Sim, sem dúvida. Até porque representava o Paços de Ferreira, que, naquela altura, não tem o reconhecimento que tem hoje. E quando estive pré-convocado para a Seleção A, o clube chegou a ter três jogadores nesse lote: eu, o Mário Sérgio e o Zé Manuel. Para um clube daquela dimensão era um grande feito.
Mas também destaco o momento em que assinei pelo FC Porto, pois jogava na II Liga e ter a possibilidade de representar um clube de "top" como o FC Porto, é uma coisa que toda a gente deseja.

PC:  O que faltou na sua carreira?
ZN: Faltou jogar num "grande". É verdade que tive a oportunidade de jogar no FC Porto, mas não a consegui agarrar, se calhar, também por causa de alguma inexperiência. E ainda houve a possibilidade de jogar no Benfica, mas o Paços, como disse, não aceitou a proposta.

PC: Tem mágoa por não ter jogado com o Penafiel na I Liga?
ZN: Sim, tenho uma ligeira mágoa, claro. Ainda houve uma abordagem na altura em que o clube esteve na I Liga entre 2004 e 2006, mas acabou por não se concretizar.

PC: Fez seis épocas na I Liga, qual foi a melhor?
ZN: Destaco as três primeiras que joguei em Paços, pelas razões que já mencionei: boas classificações, vitórias contra os "grandes", a pré-convocatória para a Seleção, etc.

PC: De que jogos guarda mais memórias?
ZN: Tenho alguns jogos marcantes, mas aqueles que ficam mais na memória são, naturalmente, os jogos contra os "grandes". E, felizmente, ganhei a todos eles: no meu primeiro ano fomos à Luz ganhar por 3-2, em que faço a assistência para o primeiro golo, se não estou em erro, e ajudámos o Paços a vencer na Luz pela primeira vez na sua história; nesse mesmo ano vencemos o FC Porto em casa, por 1-0, em que aos 89' minutos há um canto contra nós, eu estou ao segundo poste, ganho a bola, arranco, cruzo para a área, e o Leonardo faz golo. Recordo-me que estava a chover bastante, havia muita lama, e o campo estava impraticável. E contra o Sporting, em 02/03, vencemos em casa por 4-0, e fiz uma assistência nesse jogo também.

PC: Qual o extremo mais difícil que teve de marcar?
ZN: Foram alguns... Capucho, Quaresma, Simão Sabrosa. Todos com características diferentes, mas com muita qualidade, e difíceis de marcar.

PC: Que história vivida no futebol pode partilhar?
ZN: Estou-me a recordar de algumas histórias que são engraçadas, mas que não se podem contar (risos).

PC: É diretor desportivo do Penafiel. É nesta função que se pretende manter dentro do futebol no futuro ou gostava de ter outras?
ZN: Estou nesta função há cinco anos, mas primeiro comecei como treinador-adjunto. Neste momento, o meu objetivo passa por melhorar os meus conhecimentos nesta função e ajudar o Penafiel a atingir os objetivos propostos para a época atual. Quanto ao futuro, gostava de chegar o mais longe possível como diretor-desportivo, se for no Penafiel, melhor, mas se surgir a oportunidade de representar outro clube e que me permita atingir um patamar superior, não vou recusar.


A carreira de Zé Nando, aqui.

Veja por volta do 1:35 do vídeo, a arrancada de Zé Nando contra o FC Porto:


Veja neste vídeo a assistência de Zé Nando para o quarto golo do Paços frente ao Sporting:

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Ramires


Lançado pelo Vitória de Guimarães na I Liga, Ramires haveria de "marcar posição" no principal palco do futebol luso ao serviço do Alverca, clube que representou durante oito anos.
No Ribatejo, Ramires não só teve a oportunidade de se afirmar na I Liga, como ajudou o clube a subir de divisão por duas vezes.
Formado no Sporting e internacional por Portugal em todos os escalões jovens, o antigo extremo nunca foi aposta do clube de Alvalade, e um ano depois de ter saído para Guimarães como uma das "moedas de troca" por Pedro Barbosa e Pedro Martins, despertou o interesse do Benfica, clube com quem teve contrato durante cinco anos, e que o emprestou sempre ao Alverca.
Em 2004 o Alverca deixou a I Liga e Ramires seguiu igual caminho, de nada valendo os 132 jogos e 17 golos em seis temporadas ao mais alto nível.
Ainda vestiu as camisolas encarnadas do Santa Clara e do Imortal, até rumar a Espanha, para representar o Zamora, que jogava, então, na II Divisão B. A essa experiência, seguiram-se cinco temporadas no Luxemburgo, quatro no Hamm Benfica e uma no Kayl Tétange, antes de terminar a carreira.
Atualmente com 40 anos, a máxima ligação que o antigo futebolista tem com o futebol, é o facto de representar os Veteranos do Benfica, mas não esconde que gostava de voltar ao "desporto-rei" noutras funções.

Prémio Carreira: Estreia-se na I Liga, ao serviço do V. Guimarães, emprestado pelo Sporting. Que motivos o levaram a aceitar mudar-se para a "Cidade Berço"?
Ricardo Ramires: Sim, é verdade, estreei-me na I Liga ao serviço do V. Guimarães, mas não fui emprestado ao V. Guimarães pelo Sporting. Fui cedido a título definitivo, juntamente com o Capucho, o Edinho e o Arley, envolvidos no negócio do Pedro Martins e do Pedro Barbosa. Inicialmente era para assinar por três épocas com o V. Guimarães, mas só cheguei a acordo por uma época.

PC: Pelo Vitória, no campeonato, faz apenas dois jogos como suplente utilizado. Recorda-se da sua estreia na I Liga? O que correu mal para ter jogado tão pouco?
RR: Claro que me recordo da minha estreia na I Liga: foi contra o Tirsense. Foi um dia muito especial e que me marcou para sempre, pois tinha realizado um dos meus sonhos em termos Profissionais, que era jogar na I Liga. Foi, de facto, um dos dias mais felizes da minha vida.
Acho que não correu mal, o 'problema' é que tinha no meu lugar só dois dos melhores extremos direitos do futebol Português naquele momento: o Vítor Paneira e o Capucho. E eu, com 19 anos, tinha muito que aprender, mas fui quase todos os jogos convocado, fruto de muito trabalho nos treinos. Aprendi muito nesta época, pois tínhamos um plantel de grande qualidade, tínhamos uma grande equipa e fomos com naturalidade à Taça UEFA.

PC: No final dessa temporada, 95/96, um ano depois de ter deixado de ser jogador do Sporting, torna-se jogador do Benfica. Como é que surgiu esta possibilidade?
RR: Naquele momento, o meu empresário era o Sr. José Veiga, e no final da época fui convocado para os Sub-21, que iam disputar o Torneio de Toulon, e como a minha prestação foi excelente, surgiu o interesse do Benfica. Tinha, também, a possibilidade de renovar contrato com o V. Guimarães, mas optei por assinar pelo Benfica, porque o Benfica naquela época não tinha nenhum extremo direito.
Fui o primeiro jogador a utilizar a Lei Bosman em Portugal.

PC: Durante os cinco anos de contrato que teve com o Benfica, esteve sempre emprestado ao Alverca. Nunca lhe justificaram o porquê de não apostarem em si?
RR: Não. Na primeira época fiz parte do plantel principal do Benfica durante cinco meses, e o meu empréstimo ao FC Alverca começa em Janeiro dessa época.
Nas quatro épocas e meia que tive emprestado pelo Benfica ao Alverca, fui um dos jogadores com mais produtividade e rendimento na equipa, com a realização de excelentes épocas e nunca me foi dada a oportunidade de fazer uma pré-época. Só realizei uns jogos amigáveis pelo Benfica contra Real Madrid, Gil Vicente e outras equipas mais, e a minha prestação foi sempre muito positiva, cheguei mesmo a marcar o golo da vitória contra o Gil Vicente. Depois desse jogo, renovei contrato com o Benfica e fui novamente emprestado ao Alverca, e os responsáveis do Benfica daquela altura nunca me chamaram para conversar.
O porquê não sei, só os responsáveis do Benfica dessa altura é que podem responder a essa questão.

PC: Jogou oito anos no Alverca, cinco deles na I Liga. O Alverca foi o clube mais importante na sua afirmação como jogador profissional?
RR: Sim, sem dúvida. Foi o clube onde vivi os melhores momentos da minha carreira. Mas quero também ressalvar a importância do Sporting, que foi o clube que marcou a minha carreira, pois foi onde fiz toda a minha formação, e onde aprendi o mais importante para ser profissional de futebol, a par dos tempos que passei na Seleção. Foram cinco épocas de formação e uma de sénior emprestado ao Torreense, cheguei a ser Capitão dos Juniores do Sporting, aos 17 anos estreei-me nos seniores, no campeonato de Reservas contra o Olivais e Moscavide, e até marquei um golo. Fiz jogos amigáveis pelos seniores e cheguei a fazer treinos com a equipa principal, e se o mister Bobby Robson não é despedido, eu ia fazer parte do plantel principal do Sporting com 18 anos, mas, depois, com a chegada do mister Carlos Queiroz, fui emprestado ao Torreense.
Tudo o que fui como profissional de futebol e, o que sou como Homem, devo tudo ao Sporting.


PC: Que recordações e momentos guarda do tempo que lá viveu?
RR: Foram momentos de grande nostalgia que já mais esquecerei. Eu, juntamente com toda a estrutura do FC Alverca, os treinadores e os meus colegas, que eram grandes jogadores, conseguimos formar várias equipas de grande nível, com grandes resultados. Em termos de vitórias, só não conseguimos ganhar ao FC Porto, de resto, a todas a outras equipas do campeonato conseguimos ganhar nas cinco épocas que estivemos na I Liga e, dado à dimensão do clube, conseguimos marcar o FC Alverca no futebol Português.
Fiz bons amigos e foi um privilégio e uma honra ter representado o FC Alverca nessas oito épocas, e de ter jogado ao lado de grandes jogadores de nível Mundial como Ricardo Carvalho, Deco, Maniche, Bruno Basto, Mantorras, Hugo Leal, Milinkovic, Nuno Assis, Bruno Aguiar, Ronald Garcia, Lima, Rui Borges, Cajú, Hugo Costa, José Soares, Valente, Paulo Santos, Kulkov, Anderson, Tinaia, Zeferino e muitos outros jogadores.

PC: Em 2004 o Alverca desceu à II Liga para não mais voltar à I, e o Ramires fez um percurso semelhante. Não teve convites para continuar a jogar na I Liga?
RR: Não, não tive nenhum convite para continuar a jogar na I Liga, para espanto meu, pois tinha realizado praticamente todos os jogos da época e nenhum clube se interessou por mim, estranhei claro, mas sabia bem que o futebol também tem estes momentos maus, e que são muito difíceis de ultrapassar.

PC: Dois anos depois estava a representar o Zamora, da II Divisão B espanhola, e mais tarde jogou cinco épocas no Luxemburgo. Como apareceu o convite para jogar em Espanha? O que retém dessas experiências que viveu no estrangeiro?
RR: O convite para jogar em Espanha surgiu através do meu amigo e colega Toni, que jogava no Zamora, e que em conversa com o seu treinador, este lhe disse que o Zamora procurava um extremo direito de qualidade, e foi então que o Toni mencionou o meu nome ao seu treinador. Fiz uns treinos e dois jogos para me verem jogar e assinei por uma época com outra de opção.
Em Espanha foi nostálgico para mim, foi como renascer para o futebol aos 30 anos, foi o facto de me sentir novamente jogador 'a sério' como em tempos na I Liga Portuguesa. O treinador espanhol gostava muito de mim, foi lá que marquei o melhor golo da minha carreira e só não acabei a carreira no Zamora, porque eu e o presidente tivemos um mal entendido aquando da renovação do meu contrato, o que originou a minha curta passagem pelo Zamora. A minha história em Espanha não é outra e de grande nível, porque cheguei muito tarde ao futebol espanhol, com 30 anos.
No Luxemburgo assinei três épocas e meia de contrato com o Benfica do Luxemburgo e uma época pelo Kayl Tétange. Foi uma honra e um privilégio ter jogado nestes dois clubes portugueses no Luxemburgo. Passei bons momentos e alguns maus, como é normal no futebol, mas fiz grandes amizades e tenho lá grandes amigos que me receberam de braços abertos aquando da minha chegada aos clubes e ao País. Quero, desde já, agradecer a eles todos: o meu muito obrigado por tudo e só não continuei a jogar até hoje, porque as lesões musculares não me largavam e, infelizmente, o meu corpo estava desgastado de muitos anos e assim terminei a minha carreira com 36 anos.

PC: Fez seis épocas na I Liga, qual foi a sua melhor?
RR: A minha melhor época na I Liga foi na época 2000/2001, com o mister Jesualdo Ferreira.

PC: Qual o lateral mais difícil que enfrentou?
RR: Foram vários, mas só vou mencionar três: Roberto Carlos, que defrontei no tal jogo amigável contra o Real Madrid; o Rui Jorge quando estava no Sporting, e o Esquerdinha do FC Porto.

PC: Tem 44 internacionalizações por Portugal em diversos escalões. Chegar à Seleção foi o ponto mais alto da sua carreira? 
RR: Sim, joguei em todas, só não consegui ser Internacional A.
Mas fui Campeão Olímpico no escalão de Sub-16, em Bruxelas, na Bélgica; ficámos em 4º lugar no Campeonato da Europa de Sub-16, no Chipre; fui Campeão Europeu de Sub-18 em Espanha, em Mérida; 3º lugar no Campeonato Mundo de Sub-20, no Qatar; e no primeiro jogo da Seleção B, fiz o golo do empate contra a Roménia.
Sem dúvida que este foi o ponto mais alto da minha carreira, pois para mim não existe feito maior do que representar o meu País. Penso que qualquer jogador profissional de futebol ambiciona jogar nas suas Seleções.
Foi um privilégio e tive a honra de ter representado o nosso País por muitos anos.

PC: Foi jogador de Mário Wilson durante algumas épocas. Tendo em conta que o "Velho Capitão" era conhecido pela boa-disposição e pelas histórias que tinha, que momento vivido com ele quer/gostava de partilhar?
RR: O mister Mário Wilson foi um dos treinadores que marcou a minha carreira, não só pelo bom treinador que era, mas sim, também, pelo ser humano que era.
Vou partilhar uma história com vocês, que aconteceu num determinado treino em Alverca, em que já na parte final do treino fizemos um jogo entre nós, a chamada 'peladinha', que tem o mesmo carácter que um jogo para nós, jogadores, e com apenas cinco minutos de 'pelada', o Deco faz um golo magistral e o mister Mário Wilson disse em voz alta: "Quem é este jogador? Só os mágicos é que marcam este tipo de golos, Deco, podes ir tomar banho!" e assim foi, o Deco foi tomar banho mais cedo que nós.

PC: Neste momento a única ligação que tem com o futebol, é o facto de representar os Veteranos do Benfica. Não gostava de voltar ao futebol noutras funções?
RR: Neste momento, trabalho na área da Saúde e Bem-Estar, sou empresário e distribuidor de um suplemento natural que é único, exclusivo e patenteado no Mundo: a 4Life Research.
Neste momento, não esta na minha mente estar ligado ao futebol de outra forma, mas nunca se sabe e, se isso acontecer, gostava de fazer parte de uma equipa técnica como treinador-adjunto, para começar.


A carreira de Ramires, aqui.

Veja um golo de Ramires ao FC Porto, logo no início do vídeo:


E aqui, por volta dos 2:15 do vídeo, outro golo diante do FC Porto:

sábado, 15 de outubro de 2016

Rui Duarte


Rui Duarte fez um percurso curto na I Liga, mas mais do que suficiente para ficar na história do futebol luso: cumpriu exactamente 100 jogos no nosso principal campeonato.
Depois de ter ajudado o Estoril a ser campeão e a subir de divisão dois anos consecutivos, Rui Duarte estreou-se na I Liga com a camisola dos canarinhos, passou pelo Boavista, e fez duas épocas no Estrela da Amadora.
Em 2008, o antigo defesa-direito decidiu sair do País e iniciava assim um trajeto de cinco temporadas fora-de-portas: esteve quatro anos e meio na Roménia, onde representou Brasov e Rapid Bucareste, e meio ano em Chipre, com a camisola do Anorthosis Famagusta.
A passagem pela Roménia valeu-lhe, além da estreia nas competições europeias, um reconhecimento que nunca teve no nosso País: foi considerado um dos melhores defesas-direitos a jogar no campeonato romeno.
Na primeira metade da época 2014/2015 ainda regressou aos relvados em Portugal, ao serviço do 1º Dezembro, do CNS, mas decidiu colocar um ponto final na carreira, de maneira a não correr riscos de agravar um problema de saúde.
Atualmente com 36 anos, Rui Duarte trabalha como empresário e vai dividindo o seu tempo entre Portugal e Roménia, e não descura ter outras funções no futebol.

Prémio Carreira: Chegou à Liga com a camisola do Estoril, clube que ajudou a ser campeão e a subir de divisão dois anos consecutivos. Recorda-se da estreia na I Liga?
Rui Duarte: Penso que foi com o Rio Ave, se não me engano. Foi o realizar de um sonho de criança: jogar na Primeira Liga. Lembro-me que estava muito nervoso (risos).

PC: Em termos individuais, a época 04/05 correu-lhe muito bem, mas em termos coletivos, a equipa fez uma temporada fraca e acabou por descer de divisão. Na sua opinião, o que falhou?
RD: Sim, a época correu-me muito bem. A equipa começou a ter problemas logo no início da época, com o despedimento do mister Ulisses Morais. Ficou o mister Litos, que também é bom treinador, mas aquele plantel não tinha sido feito por ele, nem para as ideias dele. Além disso, tinhamos grandes jogadores, mas com pouca experiência para a I Liga, o que nos fez perder muitos pontos.

PC: Na época seguinte torna-se jogador do Boavista, mas por empréstimo do Estoril. Como surgiu a possibilidade de se mudar para o Bessa? Que outras propostas teve?
RD: Tive várias. Esse foi o pior verão da minha vida. Fui para França e assinei com uma equipa, estava tudo certo, mas quando regressei a Lisboa, o Paulo Barbosa apareceu com uma proposta da Escócia, a prometer mais dinheiro para o Estoril, e o Estoril já não me deixou ir para França, mesmo com o contrato assinado e exames médicos feitos. Acabei então por ir para a Escócia, e eles pagavam o dinheiro que o Estoril queria, mas eu iria receber menos, pelo que decidi vir-me embora. Fui mantendo o meu "braço-de-ferro" com a direção do Estoril, até aparecer o Boavista no último dia do mercado.

PC: Depois de uma temporada positiva, em que efectuou metade dos jogos do campeonato a titular, porque razão não continuou a jogar no Boavista?
RD: Porque o Estoril e o Boavista não chegaram a acordo, e depois também porque era o primeiro ano dos meus filhos na escola, pelo que vi com bons olhos a proposta do Estrela.

PC: Portanto, por essa razão, o Estrela foi a melhor proposta que teve? O que guarda da passagem pelo clube?
RD: Não tive outras, mas só pelo facto de ficar perto da minha família, foi a melhor que podia ter tido.
Adorei lá estar. No primeiro ano não foi fácil porque haviam já os "jogadores da casa", que tentavam pôr o 'barco' ao agrado deles, mas como tinhamos bom grupo, tinha aqueles com que me dava mais e as coisas foram melhorando. No segundo ano, fiz uma época muito boa. O grupo era fantástico e as coisas correram-me muito bem.


PC: Ao fim de duas temporadas na Reboleira, sai para o Brasov, da Roménia. Não houve nenhum convite de Portugal que o tenha feito pensar em continuar a jogar no nosso campeonato?
RD: Houveram vários, mas a parte financeira contou muito, para além de que me senti um pouco desrespeitado cá, porque era dos laterais com maior regularidade no campeonato e só davam valor aos estrangeiros. Mas quando cheguei à Roménia percebi que era um mal do futebol, pois lá só nos valorizavam a nós (risos).

PC: Esteve quatro épocas e meia a jogar na Roménia, onde representou Brasov e Rapid Bucareste, e meio ano no Anorthosis de Chipre. O que nos pode contar acerca dessas experiências?
RD: Fui sempre muito bem tratado, só os últimos seis meses em que estive lá, no Rapid, é que as coisas ficaram mais complicadas, porque o presidente decidiu sair do clube. Mas, de resto, foram quatro anos maravilhosos e ainda hoje tenho um nome 'feito' lá. As pessoas adoram-me.
O Chipre foi a pior decisão da minha vida. O Anorthosis é um bom clube, mas apanhei o início da crise e também não respeitam as pessoas. Pelo menos eu senti isso. Na minha opinião, são um povo muito diferente do romeno.

PC: Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?
RD: Momentos positivos são muitos porque tinha o prazer de fazer o que amo e ainda ganhar dinheiro. Mas o mais marcante posso dizer que foi a estreia na Liga Europa, em que jogámos contra equipas que todos sonham jogar. Gostei de defrontar o Légia de Varsóvia, por exemplo, porque jogar no estádio deles é algo maravilhoso, e a nível europeu são poucas ou quase nenhumas as equipas que têm uma massa associativa como a deles.
O pior momento foi um problema de saúde que me foi obrigando a largar a alta competição.

PC: Fez quatro épocas na I Liga. Qual classifica como a melhor?
RD: Talvez a primeira, pelo Estoril. Mas penso que fiz sempre épocas agradáveis.

PC: Nessas quatro épocas que passou "entre os grandes", fez 100 jogos. Algum que destaque em especial?
RD: Sim, a vitória no Dragão, pelo Estrela. Fizemos um grande jogo. Estivemos muito bem organizados e só atacávamos pela 'certa', como se costuma dizer. Naquele tempo só assim era possível ganhar a um "grande".

PC: Qual o extremo que lhe deu mais "trabalho"?
RD: Foi o Simão Sabrosa, porque nunca ficava muito na linha, jogava onde queria e, para quem está a marcar, é mais complicado.

PC: Que história vivida no futebol pode/quer contar?
RD: São várias, mas os melhores momentos que passei nesse aspeto, foram no Rapid Bucareste, com o Cândido Costa, que é das melhores pessoas e colegas que pode haver num balneário. Passávamos os estágios todos a rir. As histórias com ele são tantas, que até é difícil lembrar de alguma, porque as coisas saiam-lhe de uma forma muito natural.

PC: Atualmente é empresário e vai dividindo o seu tempo entre Portugal e Roménia. É nessa função que conta estar ligado ao futebol nos próximos anos, ou ambiciona ter outras funções?
RD: Sim, para já abracei este projeto e é para continuar, até porque ainda estou no começo, e é algo que gosto. A outra maneira de estar ligado ao futebol, só se for como diretor-desportivo, mas, para isso, ainda gostava de fazer um curso nessa área.


A carreira de Rui Duarte, aqui.

Veja uma assistência de Rui Duarte ao serviço do Estrela da Amadora, aqui.

E aqui, por volta dos 2:25 do vídeo, um golo de Rui Duarte pelo Rapid Bucareste:

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Paulo Sérgio


Paulo Sérgio chegou à I Liga pelo Vitória de Setúbal, em 1989, mas só jogaria no principal campeonato português quatro anos depois, em 1993, na Reboleira, diante do Estrela da Amadora.
Em 1995 os sadinos não evitaram a descida ao segundo escalão, mas o guarda-redes não acompanhou o clube nessa despromoção: saiu para o Campomaiorense, que acabava de chegar pela primeira vez na sua história à I Liga.
Sem sequer imaginar, Paulo Sérgio iniciava aí um percurso de sete temporadas consecutivas ao serviço dos "Galgos", em que, por entre duas descidas de divisão e uma subida, chegou à final da Taça de Portugal e tornou-se num dos capitães do clube.
Com o fim do futebol profissional em Campo Maior, mudou-se para o Beira-Mar, onde viria a assinar a sua despedida da I Liga, doze épocas e 145 jogos depois.
Paulo Sérgio tem ainda dois factos curiosos na sua carreira: esteve presente nas cinco temporadas que o Campomaiorense disputou no escalão maior; e venceu duas vezes o FC Porto, uma no Alentejo, e outra em pleno Dragão, pelo Beira-Mar, diante daquele que era o campeão europeu em título.
Atualmente com 45 anos, é gerente de uma mediadora imobiliária, e nas últimas temporadas trabalhou no Oriental, integrado na equipa técnica de João Barbosa, na função de, claro está, treinador de guarda-redes.

Prémio Carreira: Em 1989 subiu a sénior no Vitória, mas só em 1993 se estreou na I Liga. Recorda-se dessa estreia?
Paulo Sérgio: Vou começar por contar o início da minha aventura pelo futebol, que foi no União Futebol Clube Moitense, na categoria de Juvenis, com quinze anos de idade. A minha ida para o Vitória acontece pela intervenção do Magno Marta, mais conhecido pelo "Maguinho", eterno amigo que guardo no coração. Fui convidado pelo mesmo a ir fazer testes com a equipa de juvenis do Vitória, na data treinada por um amigo que também guardo no coração, de nome Jacinto João, também conhecido por "JJ". Depois do primeiro treino fui chamado à secretaria para assinar pelo clube. Recordo esse momento come se fosse hoje... era o início de um sonho, o de jogar no Vitória de Setúbal.
Comecei, nesse mesmo ano, a fazer uns treinos com a equipa principal do Vitória, treinada na altura por Malcolm Allison. No ano seguinte subi aos juniores e no último ano do escalão fiz o meu primeiro contrato como profissional, com dezassete anos, e o treinador era o Manuel Fernandes. Foi muito importante para todo o meu crescimento como homem e profissional toda a informação que o Conhé (treinador de guarda-redes da equipa principal e coordenador das camadas jovens) me deu. Ele foi, sem dúvida alguma, a pessoa que mais me ajudou no crescimento enquanto profissional. Nesse ano jogava pelos juniores alternadamente com o Carlos Ribeiro (atual treinador de guarda-redes do Vitória) e fazia de terceiro guarda redes dos séniores, juntamente com o Jorge Martins (o meu "velhote") e o Rui Correia.
Quando subi definitivamente aos séniores e agora respondendo à questão, o Vitória encontrava-se na II Divisão, onde permaneceu por dois anos. Comecei a jogar precisamente nesse ano, lançado pelo Raúl Águas. O meu primeiro jogo foi contra o Mirense, para a Taça de Portugal, e ganhámos 3-0, salvo erro. A partir dai continuei a jogar, e o Vitória acabou por subir de divisão na época seguinte.
Quanto à minha estreia na I Divisão Nacional, sinceramente não me recordo muito bem do primeiro jogo, sei que joguei os primeiros cinco jogos, o último em Guimarães, onde sofri uma grave lesão no ombro direito, que me consumiu até à última jornada da época contra o Belenenses em Belém. Esta foi uma das fases mais difíceis da minha carreira, e quero aqui deixar uma palavra de agradecimento para o Dr. Henrique Jones, Professor Fidalgo Antunes, ao falecido Maguinho e ao Cotovio, pela ajuda e empenho que tiveram na minha recuperação.

PC: O Vitória desce à II Liga em 1995, e o Paulo sai para o Campomaiorense. Porquê esta decisão?
PS: Com a manutenção do Vitória no escalão principal, regressa também um amigo ao Vitória, o Silvino Louro proveniente, na altura, do Benfica. Esperava-se vida difícil novamente para mim, pois tinha estado praticamente um ano parado e com um guarda-redes com o historial do Silvino pela frente, não seria fácil jogar. O treinador nesse ano era o conhecido Abel Braga. A aposta na baliza foi para o Silvino e, irónicamente, à quinta jornada, tenho a minha oportunidade de regresso. O jogo foi contra o Tirsense, não correu muito bem e acabámos por perder 2-1. No jogo seguinte fomos a Braga e somámos mais uma derrota por 2-0. Na semana seguinte o infortúnio bateu-me novamente à porta: durante um treino em Tróia, tive uma recaída da lesão, tive de ser operado e acabei por estar parado mais três meses. A baliza foi recuperada novamente pelo Silvino, até ao final da época. Acabámos por descer de divisão, o Silvino foi para o FC Porto e eu, por opção, e por convite do Manuel Fernandes, fui abraçar um novo projeto em Campo Maior. Acabei por fechar um ciclo de oito anos no Vitória, um clube que me deu tudo, dirigido por pessoas humildes, onde dei os meus primeiros passos como profissional, numa fantástica cidade onde estudei e onde conheci boas pessoas... mas a vida é assim mesmo, temos de continuar!

PC: No auge da sua carreira, assumiu-se como titular do Campomaiorense e, em 2001, mesmo com a descida do clube, decidiu continuar. Sendo que, na altura, tinha vários clubes de I Liga interessados em si, o que o levou a renovar contrato?
PS: Em Campo Maior fui encontrar uma realidade diferente. O clube tinha acabado de subir de divisão, não tinha o estatuto de um Vitória de Setúbal, mas acabei por encontrar o que sempre me deu mais estabilidade: boas pessoas, uma vila do "outro mundo", recheada de humildade, e acabei por ficar durante sete épocas, cinco na I Liga e duas na II Liga. Passei belos momentos no Campomaiorense, vi o clube crescer, participei activamente nesse crescimento, conseguimos levá-lo a uma final da Taça de Portugal, fomos campeões da II Liga, enfim, muitas alegrias passadas no Alentejo. Não é de admirar que uma pessoa com 31 anos, e com o estatuto que tinha, com o compromisso que tinha, voltasse a cara a uma instituição e a pessoas que me deram muito, e abandonasse o projeto. Foi o que fiz quando o clube caiu na II Liga, em que mesmo tendo convites dos melhores clubes portugueses, optei, juntamente com o clube, por assinar por mais quatro anos. Infelizmente, somente um foi cumprido, com o fim do clube nas competições profissionais.

PC: Como viveu essa situação do clube acabar com o futebol sénior?
PS: Com alguma frustração, mas sempre olhando em frente. Tinha acabado mais um ciclo, aprendi com os erros para no futuro conseguir estar mais preparado para situações idênticas. É assim que vejo a vida.


PC: Regressa à I Liga para o Beira-Mar. De todos os convites que recebeu, esta era a melhor opção? 
PS: O Beira-Mar foi uma das opções que me chegaram, entre outras que tinha, mas foi a abordagem do presidente Mano Nunes e do mister António Sousa - duas pessoas de quem guardo muito carinho -, que me levaram a rumar até Aveiro.
No início, a minha vida no Beira-Mar não foi fácil, pois tinha vindo de uma vila, de um clube em que era considerado uma das referências e, em Aveiro, inicialmente não fui muito feliz. Tudo era estranho, e demorei algum tempo a adaptar-me, mas com o trabalho e o focus que coloquei em mim, consegui dar a volta e consegui quase ser o Paulo Sérgio do Campomaiorense. Consegui atingir esse ponto alto no último jogo da primeira época no Mário Duarte, frente ao Marítimo, num jogo que tínhamos de ganhar para conseguir a manutenção, conseguimos, e para mim foi o ponto mais alto. Guardo grandes amigos que fiz lá, como Ribeirinho, Filipe, Fusco, entre muitos outros, que me percebiam e que me fizeram levantar. O meu muito obrigado a eles.

PC: Fez a sua carreira toda no nosso País. Nunca se sentiu tentado a emigrar? Não surgiram hipóteses?
PS: Nunca surgiu oportunidade para sair do País.

PC: Qual o melhor momento da sua carreira?
PS: Tive alguns. Recordo a subida de divisão no Vitória de Setúbal, com pessoas fervorosas que rodeavam o relvado à espera do apito final do árbitro para nos abraçar e levar em ombros. Recordo-me da passagem à final da Taça de Portugal em Campo Maior, e da recepção do povo à comitiva. Recordo-me do tal jogo que já referi, frente ao Marítimo, em Aveiro, que tínhamos de ganhar para conseguir a manutenção. Recordo-me de um jogo no Dragão, pelo Beira-Mar, em que ganhámos por 1-0; um jogo em Campo Maior, frente ao Sporting; e outro frente ao FC Porto, que ganhámos depois de muito sofrimento. Um dos grande momentos que tive até hoje foi um conjunto de acontecimentos vividos de uma forma diferente do que tinha vivido como profissional até então: falo da minha passagem como Guarda-Redes do Olivais e Moscavide, na II Divisão Nacional, e que me marcou bastante, por tudo o que conseguimos conquistar no primeiro ano. Faltou somente a subida de divisão, que perdemos por grandes penalidades frente ao Covilhã, depois de termos feito uma época dividida por três fases, em que fomos inteiramente superiores em duas delas. Fiz grandes amigos, deu para ver o futebol de outra forma, e foi sem dúvida um dos meus maiores momentos, participar numa prova diferente de tudo o que já tinha feito e sentir-me realizado e feliz por ali estar em ajudar, somente isso.

PC: No Vitória praticamente só foi aposta na II Liga, e pelo Campomaiorense perdeu uma Taça de Portugal. São as grandes mágoas da sua carreira?
PS: Sem dúvida que acertou em cheio. Outros momentos tristes foram as duas grandes lesões que contraí no ombro direito: a primeira ao serviço do Vitória de Setúbal e a segunda já ao serviço do Beira-Mar.

PC: Das doze épocas que jogou na I Liga, qual foi a melhor?
PS: As que passei com o Carlos Manuel, Agatão e com o Madureira, foram, sem dúvida alguma, as mais divertidas, pois conseguiu-se de alguma forma conjugar a responsabilidade do jogo com o divertimento diário nos treinos.

PC: Fez 145 jogos na I Liga. Qual ou quais os jogos que lhe ficaram na memória?
PS:  Pelos piores motivos, os das lesões em Guimarães - foram as duas feitas na mesma baliza, distanciadas por doze anos. Recordo-me também de um jogo horrível que fiz ao serviço do Beira-Mar, frente ao Leiria, na Marinha Grande, em que dei um "frango" monumental.
Pelos melhores motivos, felizmente tenho muitos, mas o que me ficou mais gravado foi a vitória no Estádio do Dragão, por 1-0, na altura, ao serviço do Beira-Mar.

PC: Que avançado foi o seu "maior carrasco"?
PS: O avançado carrasco, pode-se dizer que foi o Jardel, apanhei o homem no momento alto da sua carreira. Foi um privilégio, mas ao mesmo tempo...

PC: Que história vivida no futebol pode ou quer partilhar?
PS: Na passagem do João Alves pelo Campomaiorense, lembro-me de um episódio fantástico que os três guarda-redes viveram: fomos jogar a Salamanca numa determinada noite, acho que foi a apresentação do Salamanca aos sócios, mas eu acabei por ficar em Campo Maior a recuperar de uma pequena lesão e seguiram para jogo os outros dois colegas, acho que foi o Poleksic e o Daniel Rocha, salvo erro. O jogo não podia ter corrido pior para nós: "encaixámos" 6-0.
No outro dia de tarde fomos treinar e o que nos esperava depois do treino??? Uma consulta ao oftalmologista em Portalegre, porque o João desconfiava que os guarda-redes não viam as bolas à noite (risos). Só mesmo o grande João, homem de muito apreço e grande amigo.

PC: Nas últimas épocas foi treinador de GR do Oriental, integrado na equipa técnica de João Barbosa. O futuro no futebol continua a passar por essa função ou pretende ser, por exemplo, treinador principal?
PS: Neste momento, tenho uma mediadora imobiliária (imosolution.pt), e pertenço à equipa técnica do João Barbosa, pelo que não passa por mim qualquer ambição de um dia ser treinador principal de futebol. 
Fazemos uma magnifica equipa técnica, somos quatro, cada um especialista na sua área. Neste momento estamos à espera de uma oportunidade que aparecerá com toda a certeza, não só pela mais-valia que somos, como por todo o percurso que fizemos enquanto equipa técnica do Clube Oriental de Lisboa nos últimos três anos, em que fomos aos Quartos-de-Final da Taça de Portugal, temos uma subida de divisão e uma manutenção na II Liga.


A carreira de Paulo Sérgio, aqui.

Recorde uma das muitas boas exibições de Paulo Sérgio ao longo da sua carreira: 


E veja um vídeo que explica bem o porquê de Jardel ser um "carrasco" para Paulo Sérgio:

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Artur Jorge


Artur Jorge será sempre uma das grandes referências do Sp. Braga.
Bracarense de gema e capitão de equipa, o antigo defesa-central representou durante doze épocas consecutivas o emblema minhoto na I Liga, e viveu a fase em que o clube ultrapassou as dificuldades, ergueu um projeto e se afirmou em definitivo no futebol português.
Quando os bracarenses regressaram às provas da UEFA, em 1997, após uma longa ausência, coube a Artur Jorge assinar a vitória minhota sobre o Vitesse, da Holanda, no jogo da segunda mão, com dois golos marcados, ambos na conversão de grandes penalidades, e que resultaram numa vitória por 2-0.
Em 2004, com 240 jogos na I Liga ao serviço do seu clube de sempre, rumou ao Penafiel, onde realizou apenas um encontro, lesionando-se com gravidade logo de seguida, algo que precipitou o fim de um percurso futebolístico, onde constam, também, seis internacionalizações por Portugal, sempre no escalão Sub-21.
Artur Jorge tem no seu filho um digno sucessor: herdou o mesmo nome do Pai, joga na mesma posição e representa o mesmo clube. Recentemente foi promovido à equipa principal bracarense, por quem já leva quatro jogos consecutivos, três deles como titular.
Aos 44 anos, é dono de uma academia de futebol em Bissau, ao mesmo tempo que gere uma empresa de agenciamento de jogadores. Para trás fica, por enquanto, a carreira de treinador, que conta com passagens por Famalicão, Tirsense e Sp. Braga B.

Prémio Carreira: Em 1992, depois de dois anos de empréstimo ao Arsenal de Braga, é integrado no plantel principal do Sp. Braga. Lembra-se de como recebeu a notícia?
Artur Jorge: Fiz toda a minha formação no SC Braga e o Arsenal de Braga funcionava como funcionam hoje as equipas B. Foi uma enorme alegria saber que iria integrar a equipa A, era a realização de um sonho e uma grande prova de confiança do clube em apostar em mim. Tanto mais que, no mesmo dia, final de época, em que me foi comunicada essa decisão, a direção do clube reuniu com o plantel do Arsenal, para informar que o projeto da equipa B terminaria nessa época. Fui o único jogador desse ano a continuar, depois de uma época que individualmente correu muito bem.

PC: No primeiro ano fez doze jogos no campeonato, sete deles como titular. Recorda-se da sua estreia na I Divisão?
AJ: Perfeitamente. Fui suplente em Belém num jogo que ganhamos pela margem mínima. A cerca de vinte minutos do fim, o mister Vítor Manuel apostou em mim, estreando-me, para uma maior solidez defensiva.

PC: Foi titular indiscutível do Sp. Braga durante vários anos consecutivos, mas nunca deixou o clube. Não recebeu propostas para sair para outros campeonatos e até para os "nossos grandes"?
AJ: Naturalmente que sim. Anteriormente a visão dos clubes era menos empresarial, algumas dessas propostas eu apenas tive conhecimento passado anos. Desportivamente o SC Braga sempre acreditou em mim e eu nunca manifestei vontade de sair apenas por sair. Sempre me senti honrado e realizado por servir o SC Braga, o clube que foi a minha casa desde os doze anos. 

PC: Viveu o período em que o Sp. Braga se afirmou em definitivo no futebol português. Como bracarense e capitão de equipa, como viu e sentiu esse crescimento do Braga?
AJ: De facto o período da minha carreira coincide com o crescimento e afirmação do SC Braga. Uma carreira em crescendo internamente onde, no início, passamos por muitas dificuldades até ao momento em que há uma estabilidade e um projeto. Como atleta, sentimos de uma forma forte esse momento em que a estabilidade financeira ajudou a crescer desportivamente. Hoje é um clube de grande dimensão, com afirmação desportiva nacional e internacional. Um caso de sucesso!

PC: Em 2004 saiu do Sp. Braga, pondo fim a uma ligação de dezoito anos com o clube. Qual ou quais os motivos para a sua saída?
AJ: O final do meu contrato e o facto de não entrar nos planos do treinador para a época seguinte.

PC: Continua a jogar na I Liga, assinando pelo Penafiel. Porém, fez apenas um jogo e não mais voltou aos relvados. O que aconteceu?
AJ: Continuei na I Liga, onde assinei com o Penafiel por dois anos, mas uma lesão na segunda semana de campeonato e nova operação ao joelho, fizeram com que eu tomasse a decisão de terminar a minha carreira imediatamente.


PC: Qual foi o melhor momento da sua carreira?
AJ: Destaco não o melhor, mas um dos mais marcantes, onde conseguimos a minha primeira qualificação para as competições europeias, de onde o SC Braga andava afastado à mais de dezoito anos. Terá sido o arranque definitivo para a afirmação do SC Braga.

PC: Pelo Sp. Braga alcançou dois quarto lugares na I Liga, teve três qualificações para as competições europeias e jogou uma final da Taça de Portugal. Essa final perdida no Jamor, em 1998, é a maior mágoa da sua carreira?
AJ: Mágoa por perder, mas um dos momentos mais bonitos e emocionantes que vivi. A final da Taça de Portugal tem uma mística incrível e foi um privilégio ter a oportunidade de a disputar.

PC: Cumpriu treze épocas na I Liga. Qual destaca como a sua melhor?
AJ: A época de 1996/97 onde cumpri 32 dos 34 jogos do campeonato, com a conquista do quarto lugar e apuramento para as competições europeias.

PC: Qual ou quais os pontas-de-lança que mais "trabalho" lhe davam?
AJ: Defrontei avançados de grande qualidade como Nuno Gomes, Domingos, Jardel, João Pinto, Jimmy e Caniggia.

PC: Que história vivida no futebol pode ou quer partilhar?
AJ: O que acontece no futebol fica no futebol.

PC: Tem no seu filho um digno sucessor: tem o mesmo nome, joga na mesma posição e no mesmo clube. Tendo em conta as atuais conjunturas do futebol, pensa que o Artur pode fazer um trajeto semelhante ao que o Pai fez no SC Braga?
AJ: Tem todas as condições para atingir um nível superior, tendo em conta a dinâmica empresarial que hoje são os clubes. É um excelente atleta, muito profissional, ambicioso e competente. Está muito feliz por representar o SC Braga, o seu clube de coração.

PC: Neste momento tem uma academia de futebol em Bissau e gere uma empresa de agenciamento de jogadores, mas também já foi treinador. O futuro no futebol não passa por voltar a treinar?
AJ: Treinar diria que é uma grande paixão, mas reconheço que tenho dificuldades em me identificar com propostas ou clubes onde não existe um plano, um projeto. Poderia estar a treinar mas continuo convicto de que não vale tudo para isso.
A academia em Bissau é um projeto de grande valor social paralelamente ao desportivo. Fazemos o scout de atletas em toda a Guiné e selecionámos os melhores para fazerem parte da nossa equipa. Proporcionamos a todos melhores condições de treino e do seu próprio dia-a-dia. É muito gratificante acompanhar o empenho e a ambição de quem pouco tem, para conseguir uma oportunidade de atingir o seu sonho. Gosto da simplicidade e do reconhecimento puro dos atletas no trabalho que fazemos juntos.
A empresa agencia todos os atletas da academia e intermedia a sua colocação fora do mercado da Guiné. É igualmente objetivo alargar o mercado de atletas representados assim como o de outros mercados.


A carreira de Artur Jorge, aqui.

Veja os dois golos de Artur Jorge diante do Vitesse, na Taça UEFA, em 1997:


E aqui, por volta do 1:15, um golo de Artur Jorge ao Sporting, em 2002:

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Chaínho


Carlos Chaínho é o primeiro jogador campeão Nacional a ser distinguido, aqui, no Prémio Carreira.
Esse título conseguiu-o ao serviço do FC Porto - na célebre época que consumou a conquista do Penta -, por quem venceu ainda duas Taças de Portugal e uma Supertaça Cândido de Oliveira.
As exibições ao serviço do Casa Pia, na III Divisão Nacional, valeram ao antigo médio a ida para a I Liga, para o Estrela da Amadora, onde viria a tornar-se um dos jogadores "fetiche" de Fernando Santos, tendo, claro, acompanhado a ida do técnico para as Antas em 1998.
Depois do FC Porto, representou Saragoça e Panathinaikos - novamente treinado por Fernando Santos -, e regressou a Portugal, para o Marítimo, saindo dois anos mais tarde para o Nacional.
Ainda jogou uma temporada no Alki, do Chipre, antes de terminar a carreira na longínqua Segunda Divisão do Irão, com a camisola do Bushehr.
As quatro internacionalizações Sub-21 ao serviço de Portugal, impediram-no, em 2006, de jogar o Mundial ao serviço de Angola, País onde veio ao Mundo.
Carreira futebolística à parte, Chaínho ficou também conhecido por, certa vez, ter dito que "posso não ser o melhor jogador português, mas sou certamente o que tem os lábios mais bonitos".
Aos 42 anos joga nos Veteranos do Carcavelos e é um treinador livre, já depois de ter tido experiências como treinador-adjunto ao serviço da Naval e do V. Setúbal, e de ter orientado, na época passada, os Juniores do Casa Pia.

Prémio Carreira: Em 1994, o Estrela da Amadora contratou-o ao Casa Pia. Recorda-se de como surgiu a oportunidade de se mudar para a Reboleira e da sua estreia na I Liga?
Carlos Chaínho: Fui contratado num jogo-treino entre o Casa Pia e o Estrela da Amadora. Tive alguns clubes interessados na altura, como o Estoril, que era treinado pelo Carlos Manuel, e o Rio Ave, que se não me falha a memória era treinado pelo Jaime Pacheco.

PC: Esteve quatro anos no Estrela, altura em que o clube cimentou a sua posição "entre os grandes". Qual era o "segredo" dessa(s) equipa(s)?
CC: O segredo era a amizade de um plantel que começou a ser construído pelo mister João Alves, depois teve o mister Acácio Casimiro e, por fim, o mister Fernando Santos. Com todos eles criámos uma identidade de trabalho muito grande.

PC: Ao fim de quatro épocas no Estrela, muda-se para o FC Porto. Mas, segundo consta, Benfica e Sporting também estavam interessados em si. O Porto foi uma escolha "fácil"?
CC: Felizmente tive a oportunidade de ir para qualquer um dos três, mas o FC Porto foi quem resolveu as coisas de forma mais célere.

PC: É nas Antas que se sagra campeão nacional pela primeira vez, o clube chega ao Penta, mas nas épocas seguintes, mesmo com o melhor plantel, não se sagra campeão. O que falhou?
CC: Não falhou nada. É verdade que tínhamos, sem dúvida, o melhor plantel, mas ganhámos títulos em todas as épocas e éramos fortes nas competições europeias. E acho, também, que essas épocas serviram de "click" para vitórias futuras.

PC: Em 2001 deixa o Porto e sai para o Saragoça de Espanha. Porquê esta decisão?
CC: Podia ter ficado, mas as coisas levaram outro rumo. Não foi fácil deixar o FC Porto, mas são coisas da vida.

PC: Na época seguinte muda-se para o Panathinaikos, onde reencontra o Fernando Santos, mas a experiência na Grécia ficou longe de ser positiva, certo?
CC:  A Grécia foi um desafio lindo. Adorei! Ao princípio não jogava, depois "fui indo", e quando comecei a jogar era tudo fantástico. Fiz os últimos jogos e estava sempre na equipa da jornada, durante sete semanas consecutivas. Ia renovar por mais três anos e tive a morte da minha mãe, aí as coisas mudaram muito, queria voltar para casa, tive possibilidade de ir para o Sporting, não aconteceu, tive ainda a possibilidade de ir para Itália, mas resolvi aceitar o Marítimo, que foi o ressurgir da alegria de jogar através do mister Cajuda e, depois, com os misteres Joca e Mariano Barreto, que são pessoas importantes para mim.

PC: Regressa a Portugal para jogar no Marítimo e, dois anos depois, assina pelo Nacional. Os madeirenses "aceitaram" bem esta troca?
CC: Os quatro anos na Madeira foram do melhor em tudo. Joguei em grande equipas, com grande pessoal, e agradeço aos dois presidentes - Carlos Pereira e Rui Alves - por tudo. A troca foi muito pacífica.


PC: Em 2007 vai para Chipre e na época seguinte vai para o Irão. Como é que surgiu a oportunidade de jogar no Irão? O que nos pode contar sobre essa experiência?
CC: Devido às minhas épocas como jogador, conhecia muita gente e os convites foram aparecendo de forma normal. No Chipre adorei por tudo, tenho grandes amigos lá, enquanto que no Irão foi pouco tempo, mas tive uma grande experiência num País com uma cultura única.

PC: Jogou onze temporadas na I Liga. Qual destaca como a sua melhor?
CC: Felizmente tive várias, destaco todas que joguei na I Liga, nos quatro clubes ganhei sempre reconhecimento. No FC Porto, como devem imaginar, destaco os títulos, no Estrela foi o começo do sonho, no Maritimo e Nacional, destaco ambas as estruturas e o facto de ter ajudado muitos jogadores que hoje são referências no futebol mundial, como são o Pepe, o Danny do Zenit, o Alan do Sp. Braga, etc.

PC: Qual o melhor jogador que defrontou?
CC: Defrontei Luís Figo, Zidane, Ronaldinho, Djalminha... foram muitos sem dúvida.

PC: Ganhou tudo o que havia para ganhar em Portugal, fez quase 300 jogos na I Liga, e jogou em Espanha e na Grécia. Ficou alguma coisa por "fazer" na sua carreira? 
CC: Como jogador, não ficou nada para fazer. Agora como treinador, tenho muita coisa para fazer, pois estou no princípio do sonho!

PC: Em 2005 falou-se na possibilidade de representar Angola no Mundial 2006. O que falhou para esta hipótese não ter sido concretizada?
CC: Não foi possível porque uns anos antes tinha sido internacional por Portugal, com menos de 22 anos.

PC: Foi jogador de Fernando Santos durante oito épocas. Que diferenças vê nele e nas suas equipas em relação ao período em que foi seu treinador?
CC: Vejo poucas ou nenhumas, porque o mister Fernando Santos está sempre em evolução, nunca "dorme" em relação aos acontecimentos e conhecimentos.

PC: Que episódio vivido no futebol quer/pode partilhar?
CC: Vou recordar um episódio que vivi quando cheguei ao Chipre, e que ainda recentemente contei na SportTv. No primeiro dia de treinos no Alki, estava à espera do habitual cesto com equipamento para treinar, quando, para meu espanto, viraram-se para mim, apontaram para um monte e disseram "escolhe!". Felizmente estava comigo o Clayton, que foi meu colega no FC Porto, e eu perguntei-lhe se era normal, e ele disse que sim, que ali era assim que funcionava. Quando reparei nos meus colegas, vi alguns a treinar com camisolas do Real Madrid e do AC Milan. Enfim, outras culturas.

PC: Já foi treinador-adjunto de Naval e V. Setúbal, por exemplo, e na época passada orientou os Juniores do Casa Pia. O seu futuro no futebol passa por ser treinador principal?
CC: O que quero é treinar. Acabei recentemente o segundo nível do curso de treinador e estou disponível para projetos, contudo, por enquanto irei aprender e observar, pois dizem que tenho essa essência. Quanto ao futuro, logo veremos.


A carreira de Chaínho, aqui.

Veja aqui, pouco depois dos dois minutos do vídeo, o primeiro golo de Chaínho no FC Porto:


E aqui, por volta dos trinta segundos do vídeo, um golo pelo FC Porto ao Sporting:

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Diogo Luís


Diogo Luís ficará sempre para a história como o primeiro jogador que José Mourinho lançou oriundo da formação do clube que orientava.
Aposta do "Special One" no Benfica, o antigo defesa-esquerdo fez uma boa temporada ao serviço das "Águias", mas uma lesão na época seguinte ditou que fosse acabar a temporada ao Alverca.
Ainda passou dois anos no Beira-Mar emprestado pelos encarnados, antes de jogar quatro épocas na II Liga, ao serviço da Naval - por quem subiu à I Liga -, do Estoril e, novamente, do Beira-Mar.
Regressou ao palco mais alto do nosso futebol em 2008, pela mão do clube que haveria de ser a sensação dessa época: o Leixões. Porém, a meio da época, deixou o emblema matosinhense e rumou a Chipre.
De regresso a Portugal, e sem ofertas que lhe agradassem, Diogo Luís decidiu, aos 28 anos, terminar a carreira de futebolista e dedicar-se a cem por cento à economia, área na qual se formou.
A sua carreira até se começou a fazer no lugar de médio/extremo esquerdo, mas o recuo para lateral, além de lhe abrir as portas da equipa principal do Benfica e da I Liga, "valeu-lhe", também, quinze internacionalizações e quatro golos pelas seleções jovens de Portugal.
Aos 36 anos não descura o regresso ao futebol "no campo", mas, até lá, podemos vê-lo enquanto comentador desportivo n'ABOLA TV e, ocasionalmente, na BenficaTV.

Prémio Carreira: Em 2000, depois de ter começado a época na equipa B do Benfica, é chamado por José Mourinho à equipa principal. Recorda-se de todos esses momentos e da sua estreia na I Liga?
Diogo Luís: Sim, recordo-me de praticamente tudo. Tive a oportunidade de viver um sonho de criança. Recordo-me dos primeiros treinos, do impacto positivo que causei, das primeiras conversas com o José Mourinho, do momento em que me comunicou que ia jogar a titular, e do jogo de estreia com o Sp. Braga na Luz.

PC: Na temporada seguinte, começa bem a temporada, lesiona-se e acaba por sair, em Janeiro, para o Alverca. A decisão de sair foi sua?
DL: A decisão foi minha mas tive um 'empurrão'. Tive uma rotura muscular e ainda não estava curado - estava há três meses parado. Entretanto, no último dia do mercado de Janeiro, fui chamado pelo treinador (Jesualdo Ferreira) que me referiu que ou ia para o Alverca ou para a equipa B. Naquele momento, a poucas horas do fecho das inscrições e, tendo em conta a pouca experiência que tinha, optei por continuar a jogar na Primeira Liga. Foi um momento complicado, porque ainda nem estava a 100%. Tive de continuar a minha recuperação em Alverca, reestabelecer os índices competitivos de forma a poder jogar, isto num ano em que faltavam três meses para acabar o campeonato, uma vez que estávamos em ano de Mundial. Se fosse hoje, possivelmente, teria tido outra decisão.

PC: Depois do Alverca, seguem-se duas épocas de empréstimo ao Beira-Mar, em que fez apenas 26 jogos nesses dois anos. Dentro do ponto de vista desportivo, a experiência foi bem ou mal sucedida?
DL: A experiência foi positiva. Fui para uma cidade fantástica e para um clube que tinha uma grande empatia com a cidade. Encontrei um balneário experiente (era novamente o mais novo) e amigo.
Este 'passo' obrigou-me a crescer em todos os aspetos (pessoal e profissional). Em termos desportivos foram anos agri-doces. No primeiro ano, quando cheguei senti que não era a opção inicial do treinador. Tive de trabalhar muito. Muitas vezes ficava sozinho no relvado a preparar-me de forma a poder estar à altura quando fosse chamado. A primeira época não estava a correr bem ao Beira-Mar e, no primeiro jogo da segunda volta, tive a minha oportunidade, numa altura em que nos estávamos a 'afundar' na tabela classificativa (estávamos abaixo da linha-de-água). Até ao fim do campeonato fui sempre titular e contribuí para que o Beira-Mar conseguisse a manutenção. Senti que o meu trabalho desbloqueou a minha situação, uma vez que foi por aquilo que fazia nos treinos que 'obriguei' o treinador a dar-me uma oportunidade. No segundo ano, comecei de início, mas ao fim de duas jornadas, saí da equipa, sem perceber muito bem o motivo. Não foi um momento fácil, mas continuei sempre a esforçar-me e a auto-motivar-me. Durante essa época tivemos (o Beira-Mar) momentos muito bons e tive de aguardar pacientemente pela minha oportunidade, contribuindo para o bom ambiente de grupo e fazendo o meu trabalho de uma forma profissional e competitiva. Quando faltavam dez jogos para o fim do campeonato, o treinador chama-me e diz que vou jogar, porque o jogador que jogava na minha posição já tinha sido vendido. Nesse momento percebi um conjunto de acontecimentos que se tinham verificado ao longo desta época.
No geral, foram duas épocas positivas, porque gostei muito da cidade, do clube, dos adeptos e do balneário que encontrei. O ponto negativo, foi o facto de jogar numa posição de um jogador que a direção tinha definido que seria o próximo a ser vendido.

PC: Findo o empréstimo e em fim de contrato com o Benfica, esperava voltar à Luz para ficar, ou já contava não fazer parte das opções do clube?
DL: Quando terminou o empréstimo já não contava regressar. Ao longo dos dois anos que tive em Aveiro, não tive contacto com nenhum dirigente. Este foi um dos pontos negativos. Nos dias de hoje, entendo que estas situações já não sucedem. Quando um jogador é emprestado, deve-se ter em conta a sua forma de atuar e o seu potencial de crescimento e tentar encontrar um clube que se enquadre nos objetivos pretendidos, de forma a existir um crescimento natural. Por outro lado, é importante existir um acompanhamento próximo do clube que empresta o jogador, através de contactos regulares e de reuniões com os clubes aos quais os jogadores são emprestados, de forma a analisar de uma forma cuidada e criteriosa a evolução do jogador e, se faz sentido, continuar emprestado ou regressar à 'casa mãe'.


PC: Está quatro temporadas na II Liga e regressa à I, em 2008, para o Leixões. Não teve oportunidades, em épocas anteriores, para voltar ao nosso principal campeonato?
DL: Depois de sair do Beira-Mar, fui para a Naval, onde participei num feito histórico, a subida da Naval à Primeira Liga. Nos dois anos seguintes estive no Estoril. Estes dois anos foram complicados, em virtude das dificuldades financeiras que o clube atravessava. Como grupo, tivemos um comportamento fantástico. Num ano em que desciam seis equipas, jogámos vários jogos com apenas onze jogadores, entre os quais um guarda-redes a avançado, e conseguimos manter 'o barco'. Os onze que ficaram tinham uma personalidade e profissionalismo muito fortes e foi isso que permitiu assegurar a manutenção a duas jornadas do fim do campeonato.No quarto ano regressei ao Beira-Mar e o clube estava irreconhecível. O distanciamento com a cidade também era uma realidade. Tive a sorte de trabalhar com dois treinadores que foram importantes para mim, Rogério Gonçalves e Paulo Sérgio. Praticávamos bom futebol e, em função disso, destaquei-me, surgindo o interesse de vários clubes, entre os quais o Leixões.

PC: Representou o Leixões durante meia época e rumou ao Apollon Limassol, do Chipre. Porquê esta "troca"? Como correu a experiência?
DL: Esta troca surgiu em função do que se estava a passar. A época estava a correr bem para o Leixões, estávamos em primeiro lugar, ganhávamos quase todos os jogos, mas não estava a jogar. Surgiu a oportunidade de jogar no Chipre com um proposta financeira superior à que tinha em Portugal. Acabei por optar por uma questão financeira. Em termos desportivos encontrei uma realidade completamente diferente.

PC: Quando regressou de Chipre, aos 28 anos, terminou a carreira. O que o levou a tomar esta decisão tão cedo?
DL: Quando regressei ainda tive alguns convites, entre eles o Fátima, que era treinado por Rui Vitória. Na altura não chegámos a acordo e acabei por colocar um ponto final na carreira. Foi uma decisão ponderada, tendo por base os vencimentos que se pagam na maioria dos clubes da Segunda Liga e mesmo de alguns da I Divisão. Depois, a vertente familiar também teve um grande peso, uma vez que já tinha um filho pequeno e estava sempre fora de casa. Optei por ficar junto da família e iniciar uma carreira, antecipando um futuro que teria de acontecer, mas com uma idade que me podia proporcionar mais oportunidades.

PC: Quais são os momentos da sua carreira que mais destaca?
DL: Os momentos mais marcantes foram a estreia (com o Braga) na equipa principal do Benfica, e os jogos com Sporting, Porto e Boavista em casa com o estádio cheio, e a oportunidade que tive de ter jogado nos diferentes escalões das Seleção Nacional (até aos Sub-21). O ponto mais negativo foi a lesão que acabou por originar a minha saída do Benfica. Naquela fase estava num bom momento de forma. Esta lesão acabou por ter uma grande influência no desenvolvimento da minha carreira desportiva.

PC: Das cinco épocas que fez na I Liga, qual elege como a sua melhor?
DL: A primeira época foi muito boa, sobretudo a primeira fase. Em termos individuais, destaco também a primeira época no Beira-Mar. Num contexto difícil, consegui impor-me e ser fundamental para a permanência do clube na I Liga. Em termos coletivos e, apesar de não ter jogado com regularidade, a época no Leixões também foi fantástica. Quando saí do clube estávamos em primeiro lugar no campeonato ao fim de catorze jornadas.

PC: Qual o melhor extremo que defrontou?
DL: É difícil escolher apenas um. Defrontei grandes jogadores com características diferentes. Lembro-me, especialmente, das 'guerras' com o Capucho nos jogos contra o Porto.

PC: Foi a primeira aposta de José Mourinho oriunda dos escalões de formação. De que forma este "registo" o marca?
DL: Essa foi a primeira coisa que o José Mourinho me disse: “Vais ser o primeiro jogador que vou lançar e eu serei o treinador que te lançou”. O primeiro treinador a apostar em nós no futebol profissional tem sempre um grande simbolismo, neste caso ainda mais por ser o treinador que é e que sempre foi. Desde os tempos do Benfica que percebíamos que era diferente e que estava um passo à frente de todos.

PC: Que história vivida no futebol pode/quer partilhar?
DL: Vou optar por não descrever nenhum episódio em especial. Prefiro apenas realçar que uma das coisas que tenho mais saudade, é a convivência no balneário, onde se vivem momentos especiais e que ficam para sempre na memória.

PC: Atualmente a sua relação com o futebol resume-se ao papel de comentador desportivo, nomeadamente n'ABOLA TV. Não planeia regressar ao futebol noutras funções?
DL: Efectivamente, atualmente, mantenho-me “ligado” ao futebol como comentador n´ABOLA TV. Tem sido uma experiência muito boa e será para continuar. Relativamente ao futuro e à possibilidade de exercer outras funções, nunca se sabe. Tenho o segundo nível de treinador, tenho uma licenciatura em economia e tenho experiência e conhecimento do mundo de futebol (teórico e prático), o que poderá ser uma mais-valia para muitas organizações/instituições. Nunca se sabe o futuro, mas, naturalmente, se surgir um projecto interessante que me permita estar ainda mais ligado ao futebol (que continua a ser uma das minhas paixões), certamente irei analisar e tomar uma decisão.


A carreira de Diogo Luís, aqui.

Os melhores momentos de Diogo Luís na I Liga em vídeo:

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sandro


Sandro Mendes é uma das grandes figuras da história do Vitória de Setúbal.
Ao todo e incluindo formação, o antigo médio representou o clube sadino durante dezasseis temporadas, nove delas na I Liga - 195 jogos - e, enquanto capitão, venceu duas Taças, tendo a particularidade de ter sido o primeiro jogador a levantar a Taça da Liga em Portugal - em 2008.
Aos 19 anos já era titular no escalão maior do nosso futebol e ao fim de cinco meses já estava a ser vendido para a I Divisão espanhola, mais concretamente para o Hércules, e em 2005 voltou a ser vendido pelo Vitória, desta feita ao FC Porto, onde não chegou a fazer nenhum jogo oficial.
Regressou a Setúbal e, em 2010, o seu vínculo como jogador ao serviço dos sadinos terminou de uma forma ingrata para Sandro, que ainda jogou mais duas temporadas, primeiro no Ceuta de Espanha e depois na Naval.
Internacional por Portugal em doze ocasiões, entre os Sub-20 e os Sub-21, acabaria por se tornar internacional A ao serviço de Cabo Verde.
Foi seleccionador português de Mini-Football, uma vertente de futebol que em Portugal ainda está um pouco "escondida" e, atualmente, aos 39 anos, é treinador dos Juvenis do Vitória de Setúbal, já depois de ter sido coordenador da formação sadina, e de ter orientado os seniores do Alcacerense. 

Prémio Carreira: Estreou-se na I Liga pelo V. Setúbal em 1996. Recorda-se do jogo de estreia?
Sandro Mendes: É verdade, a minha estreia na I Liga deu-se em 1996, depois de dois anos fantásticos, um ainda Júnior, onde o Vitória, infelizmente, perdeu o título de Campeão Nacional da I Divisão de Juniores na secretaria, e o outro sendo a minha estreia como Sénior, onde atingimos o objectivo que era a subida de divisão da II para a I Liga.
Chega a estreia na I Divisão, no antigo Estádio das Antas, e lembro-me muito bem desse jogo por vários motivos, um deles é que ao minuto 90' estávamos a ganhar por 0-2, e ao minuto 99' o FC Porto lá empatou. Se não tivesse empatado acho que ainda hoje lá estávamos a jogar (risos).

PC: Fez apenas meia época na I Liga e mudou-se para Espanha, onde esteve quatro épocas e meia e representou três clubes. Que memórias guarda da passagem por Espanha e qual o clube que mais o marcou?
SM: Sim, passado meia época na I Liga portuguesa, mudei-me para a I Liga espanhola, onde representei três clubes. Sendo o primeiro o Hércules de Alicante, onde faço a minha estreia logo contra o FC Barcelona, em Camp Nou, onde actuavam na altura Ronaldo Fenómeno, Luís Figo, Guardiola, De La Peña, Vítor Baía, entre outros, e tive a felicidade de vencer esse mesmo jogo por 2-3.
Todos me marcaram de uma maneira ou de outra, o Hércules por ter sido o primeiro e onde passei mais tempo, o Villarreal por ser a primeira vez que o clube estava na I Liga, mas onde passei menos tempo, e acabei em Salamanca num ano que pessoalmente me correu muito bem.

PC: Em 2000 dá-se o regresso a Portugal e ao V. Setúbal. Porquê esta opção?
SM: Foi uma altura complicada da minha vida onde já estava a algum tempo fora e sozinho, visto que sai de Portugal com 19 anos completamente só, sem a companhia de nenhum familiar e, infelizmente, não existia a facilidade em comunicar como há hoje. E isso para mim não foi fácil, pois estava longe dos meus amigos, da minha família e da minha cidade. Quando terminou a época 1999/2000 estava em Salamanca, e depois de uma época a nível pessoal muito boa, não cheguei a acordo com a direção sobre verbas, entre os desacordos, uns dias mais perto outros mais longe, surge uma conversa com um diretor do Vitória e deu-se a hipótese do regresso ao meu clube e à minha cidade, e não pensei duas vezes. Passado dois dias estava em Setúbal a acertar a minha vinda para o Vitória.

PC: Reforçou o FC Porto em 2005, mas nunca chegou a jogar oficialmente, acabando por ser dispensado. Na sua opinião, o que falhou para não ter ficado nos "Dragões"?
SM: De todos os clubes por onde passei foi o único que não joguei, porque nem sequer me deram essa oportunidade. Fiz a pré-época, que até me correu bem, onde o treinador nos jogos de treino sempre me "usou" na posição de central, não faço ideia do porquê, e quando chegou ao fim da pré-época, em conversa me diz que eu não iria ser uma das suas primeiras opções e que o melhor seria "rodar" para poder continuar a jogar, e foi isso que fiz. Na altura tentei voltar ao Vitória, mas por vontade de quem cá estava na altura não regressei, e simplesmente continuei a minha vida.

PC: Do FC Porto seguiu para a Turquia, e em Janeiro já estava de regresso ao seu Vitória. Não gostou da experiência em solo turco?
SM: Foi uma experiência diferente, num país completamente diferente e uma cultura que nada tem a ver com a nossa. Fica a experiência, ficam algumas amizades, mas não me adaptei e preferi regressar.

PC: Saiu novamente do V. Setúbal, desta vez em definitivo enquanto jogador, em 2010. Sente que não lhe "deixaram" terminar a carreira como desejava?
SM: Depois de tantos anos no clube, onde tive a felicidade de ser vendido e com isso ajudar o clube por duas vezes, a primeira por um milhão e duzentos mil dólares - não existiam euros ainda :) - e, posteriormente, ser um dos jogadores que saiu (juntamente com o Jorginho e o Paulo Ribeiro) para o FC Porto por mais um milhão de euros, tive três subidas de divisão e uma descida, venci uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga, entre tantas outras coisas...
Sinto que merecia um pouco mais de respeito, não por ter saído, mas sim pela maneira como saí. Quando terminei a época, falei com o treinador - Manuel Fernandes - o qual me disse que contava comigo para a próxima época e que já o tinha transmitido à direcção, para estar tranquilo que estava tudo "certo", mas no final, a meia dúzia de dias para começar a época seguinte, disseram-me que "não tinham nada para mim". A vida é assim, não guardo mágoa nem rancor de ninguém, simplesmente gostava de me ter despedido de outra maneira dos sócios e da massa adepta do Vitória.


PC: Ao serviço do V. Setúbal, venceu uma Taça de Portugal e uma Taça da Liga, e esteve noutra final no Jamor. Qual dessas conquistas o marcou mais?
SM: Sem dúvida nenhuma a Taça de Portugal, por tudo... por ser a minha primeira grande conquista, por ser a festa rainha do futebol português, por ter passado tantos anos (penso que 38 anos entre a segunda e esta que foi a terceira), por poder ter marcado uma geração que, como eu, nunca tinha visto o Vitória ganhar nada, por ter podido actuar os noventa minutos e ter contribuído muito para essa conquista, e por tantas outras coisas! Claro que conquistar a Taça da Liga também me marcou e também tem muita importância, ainda por cima sendo a primeira, tem um sabor especial. Mas a Taça de Portugal foi a Taça de Portugal.

PC: Foi internacional por Portugal nas seleções jovens, mas em 2004 tornou-se internacional por Cabo Verde. Como surgiu a possibilidade de representar os "Tubarões Azuis" e quando é que percebeu que dificilmente seria opção para Portugal?
SM: Em 2004 saiu uma lei que permitia a todos os jogadores que nunca tivessem actuado na seleção A de um país e tivessem dupla-nacionalidade, poderiam optar por jogar por outro país. Eu, como tenho pai cabo-verdiano e podia pedir a nacionalidade cabo-verdiana, surgiu-me esse convite, achei interessante e aceitei com enorme orgulho. Joguei alguns anos pelos Sub-21 portugueses e, com o passar do tempo, existiu a possibilidade de jogar pela Seleção B ou Sub-23, não sei o nome que davam a essa seleção, mas a verdade é que nunca fui opção e, sendo assim, com o convite e a possibilidade de representar outra Seleção, optei por Cabo Verde.

PC: Qual foi o melhor momento da sua carreira?
SM: Felizmente tive muitos, mas sem dúvida nenhuma, o melhor foi a conquista da Taça de Portugal.

PC: Venceu duas Taças, chegou a um "grande" português, jogou na Primeira Divisão Espanhola, representou Portugal e Cabo Verde... ficou algo mais por alcançar?
SM: Por alcançar fica sempre algo... Foi bom, poderia ser sempre melhor, mas também poderia ter sido pior ;) Com muito trabalho, com muita sinceridade, fui traçando o meu caminho, e hoje, sinto-me realizado com o que conquistei, vindo de onde vim.

PC: Realizou nove épocas na I Liga, qual foi a melhor?
SM: A melhor não é fácil encontrar. Sei bem qual foi a pior: a descida de divisão com o Vitória em 02/03.
Agora a melhor é complicado, pois subi de divisão por três vezes, por duas vezes ajudei a apurar o Vitória para a Liga Europa, as duas finais da taça de Portugal, a primeira Taça da Liga... até as permanências na última jornada deixaram a sua marca.

PC: Quem foi o melhor jogador que defrontou?
SM: Tantos... entre eles, Cristiano Ronaldo e Messi.

PC: Que história vivida no futebol pode/quer contar?
SM: Tantas e tantas histórias que poderia contar, mas a verdade é que nunca fui um bom contador de histórias, e por isso, deixo essa parte para os outros (risos).

PC: Foi seleccionador de Portugal de Mini-Football. Para quem não sabe o que é, como funciona esta vertente do futebol? Como analisa a experiência que teve?
SM: É uma realidade diferente, é futebol de seis, que em Portugal ainda não existe. É um contexto diferente, mas de onde se pode tirar muita coisa. A experiência foi muito boa e bastante positiva. 

PC: Já foi coordenador da formação do Vitória, e atualmente é treinador dos Juvenis. O futuro passa por continuar a ser treinador?
SM: O futuro passa por continuar ligado ao futebol, onde sinto que posso ser útil e me sinto bem.


A carreira de Sandro, aqui.

Alguns dos melhores momentos da carreira de Sandro e a conquista da Taça de Portugal: